Curitiba em Cena

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Após 12 dias repletos de uma variedade de espetáculos nacionais e internacionais, a 26ª edição do maior evento cultural da cidade, o Festival de Teatro de Curitiba, chega ao fim no dia 9 de abril. Foram mais de 350 apresentações, destinadas a públicos diversos e exibidas tanto em teatros convencionais como em espaços públicos da cidade, mantendo o lema de que teatro e cultura devem estar a disposição de todos que os queiram consumir.

A abertura do Festival aconteceu na noite de 28 de março, com o discurso da mestre de cerimônia, a atriz Guta Stresser, que, com seu carisma e talento para improvisação irrevogáveis, deu palavra a consagrada atriz Fernanda Montenegro, 88 anos, que fez a leitura de Nelson Rodrigues “Por Ele Mesmo”. Depois de finalizada a interpretação, Fernanda fez um breve discurso sobre a importância do teatro para a comunidade e a importância do público em acolhê-lo com o devido respeito.

Além do sucesso na noite de estréia, outras novidades desta edição foram muito bem acolhidas como a ideia de diversidade em palco, que, por meio de peças instigantes, abordou questões da atualidade como o empoderamento feminino e os direitos dos negros e da comunidade LGBT. Essa ideia se manifestou em vários espetáculos da Mostra Principal – que contou com 37 apresentações nacionais e internacionais, algumas delas estreias – e aconteceu sob curadoria de Guilherme Weber e Marcio Abreu.

De acordo com o criador do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz, a essência do evento não mudou desde que ele foi criado, mas, aos poucos, ele evoluiu e foi agregando pequenas coisas a partir da compreensão do contexto no qual o Festival está inserido. “A maior evolução do Festival é entender o contexto das artes cênicas, o contexto do público, do patrocínio, o contexto econômico do momento, e, entendendo isso, tentar entregar um evento adequado a situação”.

Knopfholz ainda diz que foi essa compreensão do contexto teatral que abriu portas para as novidades da 26ª edição do evento. Entre elas, ele indicou a inserção de dois shows musicais (Gaby Amarantos “Eu Sou” e +Misturado Mart’nália e Banda – ambos sucessos nas bilheterias) e do Movva, uma das segmentações da Mostra Principal que consistiu num conjunto de espetáculos de dança.

Além da Mostra principal, o Festival de Curitiba contou com várias peças gratuitas ou ‘pague o quanto vale’ do Fringe; com o Guritiba, evento direcionado para as crianças; com o encontro da comédia nacional, o Risorama, que chegou a sua 14ª edição este ano e com um fim de semana de encerramento bem agitado pelo Gastronomix – reunião de chefs renomados no país em uma quermesse no Museu Oscar Niemeyer – e pelo Mish Mash, show de mágicas, malabarismos e comédia, que aconteceu no ParkCultural do ParkShoppingBarigui.

Diversidade em palco

A promoção de debates sócio-culturais através dos espetáculos foi um dos maiores diferenciais da 26ª edição do Festival de Curitiba.

O enaltecimento da mulher e o debate sobre feminismo e preconceito esteve presente em peças como “A Casa dos Budas Ditosos”, interpretada por Fernanda Torres e com direção de Domingos de Oliveira, “Antígona”, que é a recriação do mito de Sófocles, com dramaturgia de Amir Haddad e Andrea Beltrão, e “Mata Teu Pai”, a livre adaptação do mito de Medéia, escrita especialmente para a atriz Debora Lamm em celebração a seus 20 anos de carreira.

Da mesma forma, temas como a diversidade sexual e racial foram pauta de vários espetáculos. Dentre eles, os favoritos foram o Campeonato Interdrag de Gaymada, intervenção urbana que aconteceu nos dias 29 e 30 de março e “Macumba: uma gira sobre poder”, que foi apresentada nos dias 03, 04 e 05 de abril, e discute o empoderamento da mulher e do homem negro por meio de um musical celebrativo e revelador.

Festival para todos

O Festival de Teatro de Curitiba, que começou em 1992 a partir de uma conversa entre amigos, tem como objetivo aproximar o teatro dos curitibanos e trazer espetáculos que normalmente não poderiam ser vistos na cidade. Várias peças acontecem em espaços públicos, como praças e terminais, e são gratuitas para a população.

Para o criador do festival, Leandro Knopfholz, o evento aproxima o público das apresentações e as apresentações do público “O festival é um selo de garantia, se está no festival vá assistir que talvez você curta. Nós temos vários espetáculos que não tem muita divulgação mas com o festival as pessoas vão assistir.”

No Festival de 2017 o Fringe, subdivisão do evento com maior número de peças, teve mais de 30 peças gratuitas, fora as peças “pague o quanto vale” (nas quais o público, após assistir, decide o quanto vai pagar pelo espetáculo) e as peças no valor mínimo do festival de 6 reais. A Mostra Principal teve cinco peças gratuitas: Nossa Senhora [da Luz], Involuntários da Pátria, o Campeonato Interdrag de Gaymada, Próspero e os Orixás – a Tempestade, e a leitura de “Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo”, por Fernanda Montenegro. A Mostra Especial também contou com espetáculos gratuitos ou “pague o quanto vale”.

Nas demais peças do Festival o valor máximo foi de 70 reais e a meia entrada foi oferecida a estudantes, idosos, professores e clientes e funcionários das empresas patrocinadoras.

De todas as mostras do Festival, a destinada para as crianças não contou com muitas opções gratuitas. O único espetáculo oferecido sem custo de entrada foi “Isso é Rock, bebê”, no ParkShoppingBarigui. Mas o Guritiba, segmentação destinada ao público infantil, promoveu um projeto social que levou três espetáculos a algumas escolas públicas da cidade.

Movimento dos sem Ingresso

As peças do festival de teatro tem direito a pelo menos 10% dos ingressos como cortesia para serem doados para imprensa, patrocinadores e amigos e familiares. E quando a companhia não é de Curitiba e não conhece muitas pessoas na capital paranaense, para onde vão estes ingressos?

Antigamente, vários destes ingressos eram distribuídos nas mesas de bares e muitas vezes eram confundidos com panfletos e acabavam sendo jogados fora. Em 2004, Débora Cristina dos Santos começou junto com um amigo da faculdade o “movimento dos sem ingresso”. Ela explica que viu a necessidade de criar o projeto porque “quando eram distribuídos em bares o pessoal não parava de beber para ver o que era, ou seja, a maior parte dos ingressos ia para o lixo.”

Débora também explica que o Festival custa 8 milhões de reais e que as cortesias já são pagas por esse dinheiro e que se elas são desperdiçadas é dinheiro investido sem necessidade. “Quem vem buscar aqui são pessoas interessadas, claro que sempre tem uns 10% que pegam e não podem ir por algum imprevisto, mas em geral 90% dos ingressos que vem para gente são utilizados”.

A atriz e produtora Raquel Franciele, que participa do movimento desde 2007, explica que o  movimento funciona em frente ao Memorial de Curitiba, no centro da cidade, e pelo facebook e acontece como uma troca: quem pegou o ingresso deixa um comentário sobre a peça que assistiu na página do facebook do movimento como um retorno para companhia. Além dos ingressos, Raquel conta que,  várias vezes, as companhias ligam para eles avisando que todas as cortesias já foram doadas, mas que, como ainda tem muitos lugares vazios, vão liberar a entrada. “Só no ano passado distribuímos 3 mil ingressos além das entradas liberadas que divulgamos.” Durante os 14 anos de projeto, o Movimento dos Sem Ingresso já distribuiu mais de  25 mil ingressos.

Por Yasmin Graeml e Stephanie Abdalla

2 thoughts on “Curitiba em Cena

  1. Gosto muti de festivais de Teatros, ainda não participei de nenhum. E concordo com o discurso que a Fernanda Montenegro fez, Teatro deve ser consumidos por todos e com respeito. O Festival já acontece a bastante tempo né? Mas só agora fiquei sabendo desse de Curtiba

    1. Siim este festival existe há 26 anos, e sempre trás peças muito legais para Curitiba!! Você é atriz? Vale a pena se programar um ano para vir assistir! É o maior da américa Latina!

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