O Brasil não é para todos

Rio2016 ...

Há um ano, nesta época, eu estava no Rio de Janeiro trabalhando como voluntária nos Jogos Olímpicos. Sem dúvida, os quinze dias que passei lá foram uma das melhores experiências da minha vida. Todos os dias eu conversava com atletas do mundo inteiro, conhecia outros voluntários e fazia amigos. O espírito olímpico, de fato, existe e o Rio estava iluminado e animado.

Famílias unidas, grupos de amigos, crianças sorrindo… Foram poucas as vezes que tive que lidar com pessoas mal humoradas ou mal educadas. Em geral, todos estavam ali para se divertir e torcer pelo seu país. Porém, no meio de tanta felicidade, uma cena não me sai da cabeça e me faz refletir muito sobre a nossa sociedade. Foi em um dos meus primeiros dias de trabalho. Estava na entrada, passando os tíquetes, quando olhei para o lado e vi dois meninos pulando a grade. Eles aparentavam ter em torno de dez anos, eram negros e tinham roupas bem simples. Fui conversar com eles, pois, afinal, era minha responsabilidade não deixar ninguém entrar sem ingresso. Cheguei perto e falei: “Oi meninos, tudo bem? Seguinte, para entrar aqui tem que passar o ingresso ali onde aquelas pessoas estão. Não pode entrar pelo cantinho da grade”. Eles me olharam e falaram: “Moça, noís não tem ingresso não, mas a gente quer muito ver o jogo também” e correram em direção a arena. Eu fiquei paralisada e entrei em um conflito interno de moral e valores. Será que eu deveria seguir meu lado humano e sentimental, fingindo que não tinha visto nada, e deixar os meninos verem o jogo? Ou devia seguir meu lado responsável e profissional, que sabia que além de pagar ingresso, quem entrava pelo lugar certo passava por detectores de metal e outros mecanismos essenciais de segurança?

Tudo que eu queria era não ter visto os meninos entrarem daquela forma! Ninguém mais tinha notado… Depois de muito pensar, resolvi contar para o meu supervisor, assim a decisão não seria mais minha. Nisso, já haviam passado uns cinco minutos e já tinha dado tempo dos meninos pelo menos verem o campo em que o Brasil iria jogar. Meu supervisor logo passou um rádio para a segurança que, rapidamente, encontrou os meninos. Uma das supervisoras também se comoveu com a situação e deu para eles alguns brindes dos jogos e me chamou para que eu os acompanhasse até a saída. Mesmo decepcionados por não terem visto o jogo, eles estavam felizes com os brindes. Lá estava eu e os dois meninos. Acho que eu estava mais chateada que eles com o ocorrido. Afinal, todos os jogos tinham lugares sobrando e não me parava de passar pela cabeça quantas crianças estavam ali, tão perto da magia das Olímpiadas, mas barradas por uma grade e impedidas de serem incluídas naquela experiência única que é assistir a um jogo das Olimpíadas. Todos os dias havia pessoas deitadas na praia, em volta da arena, tentando, espiar o que estava acontecendo lá dentro.

Durante a caminhada de saída, um dos meninos me agradeceu: “Moça, obrigado por não ter tirado a gente na hora que você nos viu. Nós conseguimos pelo menos por ver como é a arena!” Eu me senti mal, pois sabia que tinha tirado eles de lá, avisando a segurança. Mas sabia que não poderia ter feito outra coisa. Era apenas o meu trabalho… A culpa não era minha, nem dos seguranças, nem do supervisor. Infelizmente, o Brasil não é para todos, apesar de tentarmos todos os dias fingir que é!  É mais fácil acreditar que está tudo bem!

Esta é a história de dois meninos, mas quantas outras crianças não puderam ver as Olimpíadas, a Copa do Mundo, um desfile de Carnaval, apesar de tudo isso estar acontecendo, praticamente, no quintal de suas casas.

Eu queria ter escrito um texto feliz, relembrando os momentos inesquecíveis que tive durante as Olimpíadas, como tantos que escrevi à época, aqui no blog. Mas hoje acordei pensando novamente naqueles meninos. Então, apenas deixo uma pergunta no ar: o que nós fizemos para ser mais “especiais” que esses meninos, para poder construir uma arena na praia deles e impedi-los de participar da festa?

2 thoughts on “O Brasil não é para todos

  1. Acho que infelizmente essa não é uma questão que atinge só o Brasil, o mundo não é para todos. Você pode ter certeza que se fosse em algum outro país, uma pessoa que não fosse você, visse aqueles meninos, eles poderiam ter sido expulsos do lugar a base de bofetadas. É como você disse, você fez o seu trabalho. Fez o que deveria ser feito. Mas é impossível deixar o lado humano e sentimental de lado.

    1. Pois é… infelizmente o nosso mundo não é para todos. Este episódio foi algo que realmente me marcou e acho que para sempre vou me lembrar dos dois menininhos que só queriam ver um pouco daquilo rapidinho!

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